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sábado, 27 de setembro de 2008

cartas antigas

click on images to enlarge















desenhos de 2000/2001 nanquim, lápis de cor, etc. exceto david bowie (print)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

vida no trânsito



episódio 5, meu preferido. as falas são uma beleza. vejo loucas semelhanças com o texto do Marinho.
série completa: http://fiztv.uol.com.br/blog/?idAreaAtual=22

terça-feira, 24 de junho de 2008

mata cavalos

Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia. há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

*trecho de Dom Casmurro que estou usando no projeto "Casmurra" para realizar as pinturas e relevos que ele descreve, reproduzir esta sala imaginada.

sábado, 1 de setembro de 2007

assassinato na literatura infantil


quando postei alguns capítulos da primeira edição do Caneco de Prata, cometi um assassinato na literatura infantil *. querendo me gabar, não me certifiquei se eram aqueles os tais capítulos extintos, fui escaneando meus preferidos, botando alí, fazendo tudo ao mesmo tempo. e pra que falar de capítulo extinto? acho que o psicanalista e eu estamos com alguma necessidade de afirmação**.

abaixo o delicioso pito do próprio João Carlos Marinho, para quem enviei o link do blog. ele me alertou do erro e a bronca é um depoimento.


* assassinato na literatura infantil é o excelente título da mais recente aventura do gordo.


** "O psicanalista continuava dando volta na Terra de disco voador.

Quando passava em cima do mapa do Brasil avistava a coluna do ESQUADRÃO DA MORTE caminhando para o sul.
Desceu no mapa da Suécia para comprar um maço de cigarro e trouxe uma sueca de biquini dentro do disco.
Quando a mulher do psicanalista viu a sueca de biquini sentada na copa falou:
Esse Jorginho eu acho que ele anda com alguma necessidade de afirmação" (O Caneco de Prata, cap. 47)



----- Original Message -----
From: João Carlos Marinho
Sent: Friday, August 31, 2007 8:10 PM
Subject: A capa da Vera Ilce, que delicia

Cara Erika
O seu blog está muito bonito, muito caprichado, é o blog de uma artista.
Sua dica da estante virtual é ótima. Achei todos os meus livros lá, uns sob o nome de João Carlos Marinho e outros sob o nome de João Carlos Marinho Silva.
Uma dica dessas vale ouro.
Eu não tenho mais a primeira edição do Caneco, então fiquei emocionado ao ver novamente a maravilhosa capa da Vera Ilce. Se você a conhece me diga onde ela anda. Ela também decidiu o problema dificilimo da diagramação do Caneco, ficamos uma noite inteira, varamos a madrugada até que ela falou: diagrama de baixo para cima e bota numeros grandes preenchendo os espaços brancos. Ficou de uma elaboração gráfica primorosa.
Os capitulos que você colocou no site, o Esquadrão da Morte e a sentença do marciano ( e a consequente internação do MM João Lambão no hospicio ) continuam no livro, sempre continuaram, e foi com eles que a censura da ditadura cismou para proibir o Caneco nas escolas publicas. Após a primeira edição, pesquisando a leitura de crianças, verifiquei que o livro estava abstrato demais e elas não conseguiam se interessar na leitura. Então eu coloquei mais capitulos falando do desenvolvimento do campeonato de futebol, reforçando a sequência lógica do livro, mas a alma eu não tirei, os capitulos surrealistas bons eu deixei, só tirei os mais fracos para dar lugar aos do campeonato. Nunca que eu ia tirar o Esquadrão da Morte ( que toma alguns capitulos) e nem a sentença do pito do marciano e a consequente "internação" do juiz. Essa reformulação do Caneco deixou o livro muito melhor e com o mesmo pique.
Um abraço
João Carlos

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

estante virtual

www.estantevirtual.com.br

incrível. achei coisas que sempre quis ter. números da revista Arte em São Paulo (de 1981, o/um dos primeiros trabalhos da Lisette Lagnado) e livros impossíveis do João Carlos Marinho: Pai Mental e Outras Histórias e o Anjo de Camisola.

obrigada ao david pela dica batata.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

O maravilhoso Caneco de Prata





alguns capítulos do Caneco de Prata. favoritos e/ou que não existem mais nas edições recentes.

e nenhuma edição é linda como a minha, a primeira. (que achei num sebo. em 1971 eu estava nascendo.)




clique nas fotos para ampliar

O Caneco de Prata, João Carlos Marinho, 1971, my favorite book ever

segunda-feira, 25 de junho de 2007

a falta de contexto animal

"Senhoras e Senhores", ela começa. "Faz dois anos que estive nos Estados Unidos pela última vez. Na palestra que proferi naquela ocasião, tinha minhas razões para mencionar o grande fabulista Fraz Kafka, e particularmente sua história ' Um relato a uma academia', sobre um macaco educado, Pedro Rubro, que comparece diante dos membros de uma academia para contar a história de sua vida, de sua ascensão de fera a algo próximo do homem. Naquela ocasião, eu própria me sentia um pouco como Pedro Rubro e falei isso. Hoje essa sensação é ainda mais forte, por razões que espero fiquem claras para vocês.



quando estava procurando uma imagem da capa do "na praia" para o post anterior, vi que o ian mcewan, o salman rushdie e o j.m. coetzee são vetereanos de shortlist para o Booker prize, e acho q os três já ganharam. Acho que o j.m. coetze é o único que já ganhou duas vezes, algo assim.

fiquei surpresa porque nunca tinha ouvido falar de J M Coetzee, mas o livro que li ao mesmo tempo que o "na praia" foi " A Vida dos Animais", de J M Coetzee.


quem me deu A Vida dos Animais de presente de natal há uns 3 anos atrás foi o tiago. Quem já viu o
blog do tiago sabe que ele se interessa por assuntos sérios, guerras, deus e um monte de coisas científicas. Por isso não tinha lido até hoje A Vida dos Animais, achando que era um livro de filosofia complicadíssima. E é.

que loucura pode ser a falta de contexto na vida de um animal como eu! li o livro todo encafifando: que jeito estranho de escrever um livro acadêmico, inventando uma senhora fictícia que dá uma palestra! franzi bastante a testa e achei o tema interessantíssimo: Por que temos tanta certeza de que a vida dos animais não é tão importante quanto a vida humana e etc. ? Enquanto lia me senti um pouco macaca por estar lendo em português um livro escrito originalmente em inglês (The Lives of Animals) e pensei se realmente os cães e gatos pensam mas não falam a nossa língua, essas coisas.


agora, sabendo que A Vida dos Animais é literatura: que jeito estranho de escrever a história de uma senhora, fazendo o livro parecer um tratado de filosofia! O livro ganhou nobel de literatura. Talvez pela esquisitice mesmo. Deve ser meio o equivalente aquele "questionamento do suporte" de arte. Nunca pensei que literatura também tivesse aquela coisa de arte, que alguém - de preferência o artista - precisa apontar como arte, falar "É.", se não não é.


parece que Mr. Coetzee cria essas confusões com frequencia. Saiu livro novo dele agora: "Homem Lento", com alguma complicação também (a mesma velhinha da palestra aparece do nada e vira guru de um homem que perdeu uma perna, algo assim). Gostei do título "homem lento"... vou dar uma olhada no primeiro parágrafo. Tenho medo de ser alguma trip tipo Ítalo Calvino, do livro dentro do livro dentro do livro. Acho que metalinguagem está com tudo, mas chuto que hoje em dia dá para fazer metalinguagem de algum outro jeito, sem causar tontura. Talvez J M Coetzee possa entrar para minha lista de "trabalhos pelados", de estruturas aparentes, tomara.


A capa do A Vida dos Animais tem uma pintura bacana do Rodrigo Andrade que deve ser do começo dos anos 90. E a capa do homem lento de quem é? Fábio Miguez?




Putz, fui olhar e não é Rodrigo Andrade, é Fábio Miguez! de 89. A outra capa que eu pensava que era do Fábio Miguez, de quem será?

Coetzee, J. M. , 1940 - A vida dos animais ; São Paulo, Companhia das Letras, 2002

na praia

"Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível." , é assim que começa.

Impliquei com essa explicação adiantada e tive a impressão de que ele estava se desculpando, ou dando instruções para ler o livro naquele contexto.
derreti na segunda frase: "Mas nunca é fácil ".

o aviso do contexto me perseguiu. é trabalhoso lembrar a todo momento que a história acontece no começo dos anos 60, e não no século XIX (a problemática é muito casta). já tinha pensado esse comentário quando o noivo Edward me dobrou, nas últimas páginas: "Você não conhece nada disso, não é? Leva as coisas como se estivéssemos em mil oitocentos e sessenta e dois. Você nem ao menos sabe beijar."

o mcewan disse numa entrevista que livro que não tem nenhuma cena de sexo não presta. e o que há de sexo na história é muito, muito legal. ao longo do livro vai melhorando sem dó. também são muito legais as sensações do Edward como parte de uma família toda difícil. "Mas nunca é fácil." as últimas páginas são sensacionais e despenquei a chorar.

o livro é muito chique. curtinho, todo bonito, muito preciso, redondinho, uma bolinha de gude.



McEwan, Ian Na praia/ Ian McEwan ; tradução Bernardo Carvalho. - São Paulo: Companhia das Letras, 2007 Título Original: On chesil beach Copyright 2007 Ian McEwan Proibida a venda em Portugal

o demônio tipográfico

"Se isso serve de desculpa, foi só recentemente que me dei conta de que fico um pouco atordoado na sua presença. Nunca antes entrei descalço na casa de uma pessoa. Só pode ser o calor!" Como parecia superficial aquela frivolidade protetora. Ele parecia um tuberculoso fingindo que está apenas resfriado. Deu duas linhas em branco e reescreveu: "Sei que como desculpa é insuficiente, mas nos últimos tempos percebo que fico um pouco atordoado na sua presença. Que idéia foi essa a minha, de entrar descalço na sua casa? E quando foi que eu quebrei a beira de um vaso antigo antes?". Repousou as mãos no teclado enquanto enfrentava o impulso de datilografar o nome dela outra vez. "Cee, acho que a culpa não é do calor!" Agora o tom de humor fora substituído pelo melodrama, ou pelo queixume. As perguntas retóricas tinham algo de repulsivo; o ponto de exclamação era o primeiro recurso dos que gritam para se exprimir com mais clareza. Ele só perdoava essa pontuação nas cartas de sua mãe, onde cinco exclamações enfileiradas indicavam uma piada das boas. Ele girou o tambor da máquina e datilografou um "x". "Cee, acho que a culpa não é do calor." Agora o humor desaparecera, e um toque de autocomiseração se insinuara. Seria necessário recolocar o ponto de exclamação. Claramente, a função do tal ponto não era apenas a de aumentar o volume.
Robbie ficou mais quinze minutos mexendo no rascunho e por fim colocou folhas em branco na máquina e passou-o a limpo. As linhas cruciais ficaram assim: "Você poderia pensar que enlouqueci - por entrar na sua casa descalço, ou por quebrar seu vaso antigo. A verdade é que me sinto um pouco tonto e aparvalhado na sua presença, Cee, e acho que a culpa não é do calor! Você me perdoa? Robbie". Então, após alguns momentos de devaneio, com a cadeira inclinada para trás, em que ficou a pensar na página em que sua Anatomia tendia a se abrir nos últimos dias, recolocou a cadeira no lugar e, antes que conseguisse se conter, datilografou: "Em meus sonhos, beijo tua boceta, tua boceta úmida. Em meus pensamentos, passo o dia inteiro fazendo amor contigo."

(...)

"A palavra: tentava impedir que ela ressoasse em seus pensamentos, porém ela dançava em meio às suas idéias, obscena, um demônio tipográfico, sugerindo anagramas vagos e insinuantes - boteca, tabeco, cabeto. As palavras que rimavam ganhavam forma com base nos seus livros infantis - rodela de crochê em forma de rosa, trejeito facial, astro sem luz própria que gravita em torno de uma estrela. Naturalmente, nunca ouvira ninguém pronunciar aquela palavra, nem a vira em letra de fôrma ou a encontrara entre asteriscos. Ninguém na sua presença se referira à existência da palavra, e, mais ainda, ninguém, nem sequer sua mãe, jamais se referira à existência daquela parte de seu corpo que - disso Briony não tinha dúvida - a palavra designava. Ela não tinha dúvida de que era isso. O contexto ajudava, porém não era só isso, a palavra era coerente com seu significado, era quase uma onomatopéia. O arredondado das formas da segunda, terceira e quarta letras era tão claro quanto uma série de desenhos anatômicos. Três figuras ajoelhadas ao pé da cruz da quinta letra."


Ian McEwan, Reparação | Atonement, 2001, pgs. 106, 107 e 140.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Beijei Um Jovem

"THE DAY I KISSED A BOOK"



foi assim: estava lendo e quando dei por mim, tinha dado uma bicota de ternura na lombada do livro.




Comentário Depois de Ler o Livro Inteiro: Da metade pra lá, o narrador resolve ir para a selva no Equador e a coisa começa a degringolar. O final é ruim, incrivelmente ruim, nem te conto.



Benjamin Kunkel, 33, first novel, Indecisão | Indecision, 2005